Como será o seu futuro no Japão?
Conheça os planos do governo para enfrentar a falta de mão-de-obra e como isso afeta os dekasseguis

Tokyo - Japão enfrenta um dilema que pode comprometer o seu futuro. Como resolver a falta crônica de mão-de-obra para que a economia continue em pleno funcionamento? Quaisquer que sejam as decisões tomadas pela alta cúpula do governo, a vida do dekassegui vai ser afetada - para o bem ou para o mal.
O Ministério da Justiça acaba de anunciar o seu 3º Plano Básico para Controle de Imigração. O documento é elaborado a cada cinco anos e serve para orientar a política de imigração a ser seguida pelo governo japonês. Pela primeira vez, um documento oficial cita a necessidade de o país abrir as portas para trabalhadores estrangeiros não-especializados, descendentes de japoneses ou não. Isso significa que o governo ouviu as reivindicações de empresários que há tempos pedem maior entrada de imigrantes para servir de mão-de-obra.
1 - Quando a lei vai mudar?
Qualquer mudança no Japão é demorada e extremamente planejada. Durante as discussões do Plano Básico, chegaram a ser levantadas propostas como só receber estrangeiros que dominassem o idioma japonês e limitar número de vistos. Mas o documento final do governo não se aprofunda no assunto.
Em entrevista exclusiva ao Tudo Bem, Haruaki Isoya, diretor do Escritório de Planejamento da Política de Imigração, do Ministério da Justiça, orgão responsável pela elaboração do documento, disse que o governo japonês não está sendo lento para implementar mudanças na legislação. “O simples fato de mencionar a necessidade de receber trabalhadores não-especializados mostra que estamos preocupados com o assunto”, afirmou. Até a divulgação do próximo Plano Básico, que vai ocorrer somente em 2010, não deve haver alterações radicais na atual legislação.
2 - Como isso afeta os dekasseguis no Japão?
O aumento da criminalidade, a dificuldade da adaptação aos costumes nipônicos e a até a perda da identidade japonesa (já que o país passaria a ter mais mestiços devido ao aumento de casamento interétnicos) são as principais preocupações do governo japonês com a entrada de mais trabalhadores estrangeiros não-especializados.
Para os dekasseguis, pode haver aumento da concorrência no mercado de trabalho, principalmente nos momentos de enfraquecimento da economia. Em situações mais críticas, haveria maior redução de horas extras, os salário seriam achatados e até as demissões apareceriam com mais freqüência. Caso a economia prossiga aquecida, não deve alterar o mercado de trabalho, já que a falta de mão-de-obra é crônica.
O Plano fala dos dekasseguis brasileiros?
Indiretamente sim. Antes de liberar a entrada para trabalhadores estrangeiros não-qualificados, a proposta do governo é melhorar a vida de quem já está aqui. Isso significa que o governo quer que os nikkeis brasileiros permaneçam no país definitivamente. Para que isso ocorra numa velocidade maior, serão concedidos mais vistos permanentes e os vários ministérios farão trabalhos conjuntos para elaborar propostas concretas para resolver os principais problemas dos dekasseguis.
Os dekasseguis podem servir de modelo para o governo japonês. Ao buscar soluções específicas para quem já está aqui, o governo busca minimizar os impactos negativos que possam ocorrer no futuro quando as portas forem abertas para outros estrangeiros. Ao mesmo tempo, já tem possíveis soluções e instrumentos para enfrentar problemas maiores. Durante a entrevista ao Tudo Bem, em diversos momentos o diretor Haruaki Isoya citou as dificuldades de adaptação que os filhos dos nikkeis enfrentam na escola como um dos problemas que mais merecem atenção do governo nipônico.
Mudanças concretas
O principal enfoque do Plano Básico de Controle da Imigração foi dado aos trabalhadores estrangeiros especializados. O governo quer facilitar a vinda de mais profissionais qualificados. O sistema de concessão de vistos será simplificado. Hoje é um processo burocrático e demorado. Um visto demora até três meses para ser liberado.
Caminhos para os dekasseguis
Pelas prioridades traçadas pelo Plano Básico de Controle da Imigração, os maiores agrados serão dados, num primeiro momento, aos trabalhadores especializados. A razão é simples: o governo acredita que são profissionais que fazem a diferença, que podem manter o índice de desenvolvimento e ajudar o Japão a se globalizar mais rapidamente. Trabalhadores não-especializados são sinônimo de dor de cabeça, pois provocam um impacto social negativo, como marginalidade e dificuldade de adaptação. O melhor caminho para quem pretende se beneficiar das mudanças que começam a se desenhar é buscar uma especialização.
Quem leva mais vantagem nesse processo são os filhos dos dekasseguis, que têm oportunidade de estudar em uma universidade japonesa. Como são pouquíssimos os que conseguem atingir esse objetivo, o governo poderia criar mais facilitadores para que isso ocorra. Os dois lados sairiam ganhando.
Por que o Japão deve abrir suas portas?
- Em 2004, o Japão sofreu a quarta queda consecutiva na taxa de natalidade. Nasceram 1,120 milhão de bebês. Embora pareça alto, o número representa 14 mil nascimentos a menos do que o esperado.
- A taxa de natalidade japonesa, que já é uma das mais baixas do mundo, tende a ficar ainda mais achatada: são 8,8 nascimentos para cada 1.000 pessoas. No Brasil, esse índice é de 17,67; nos Estados Unidos, 14,14.
- O número de mortes no Japão também é pequeno: foram 1,034 milhão de falecimentos em 2004, nove mil a menos que o esperado.
- A população japonesa envelhece bastante, o que causa problemas para o sistema de previdência - ou seja, é cada vez maior o número de aposentados.
- A expectativa de vida dos japoneses é a maior do mundo: 82 anos. As mulheres são as que vivem mais: 85 anos.
- Projeções apontam que, em 2030, haverá 10 milhões de pessoas a menos no Japão. Hoje, a população do arquipélago é de por volta de 120 milhões. O decréscimo deve começar a partir de 2010.
- Em 2030, um em cada cinco japoneses terá mais de 75 anos de idade.
- Com menos casamentos, nascem menos japoneses. E a situação não parece melhorar tão cedo. No ano passado, foram realizados 725 mil casamentos, queda de 15 mil em relação a 2003.
- Embora seja oscilante, a recuperação econômica japonesa parece sólida. A produção industrial em 2004 cresceu 5,6% em relação ao ano anterior, registrando o segundo ano consecutivo de aumento. A alta é atribuída em parte à alta demanda por aparelhos domésticos digitais.
Definições
Trabalho não-especializado
É o braçal, que não requer conhecimento específico. É o caso de quem atua na linha de produção da fábrica.
Trabalho especializado
É o que requer formação universitária e habilidades específicas, como os engenheiros, técnicos em informática, médicos, executivos etc.
(Jhony Arai) Matéria publicada na edição #634 do Jornal Tudo Bem
- Nesta semana
94 mil brasileiros já conseguiram o visto permanente
- Tempo
- Em Nara
25°CParcialmente nebuloso


