Músicos querem deixar a fábrica
Brasileiros que trabalham na linha de produção revelam o desejo de seguir carreira artística no Japão
Aichi - Qualquer pessoa que tenha um talento gostaria de viver fazendo o que mais gosta. E nas linhas de produção das fábricas japonesas há alguns músicos de mão cheia, brasileiros que estão buscando seu espaço.
É o caso do Terra Trio, que vem ensaiando nos últimos oito meses o seu repertório para se lançar no mercado tocando múÂsica sertaneja. “Música sertaneja é o que a gente gosta de fazer. Tocamos por prazer. Mas queremos ter uma carreira e temos capacidade para isso”, considera Dirceu Siqueira Alves Júnior (viola e segunda voz).

O sertanejo Terra Trio busca espaços para seguir carreira: “Temos capacidade para chegar lá”
Siqueira trabalha em um restaurante, enquanto FerÂnanÂdo JiÂroto (violão e vocal) e EduarÂdo Caju (contrabaixo) labutam em fábricas. “Tocar em restaurantes seria muito bom”, afirma SiÂqueiÂra. Segundo ele, “o público sertanejo é composto por famílias que não ficam apenas dançando, mas consumindo também”.
Outro que defende a abertura de mais espaços para os músicos brasileiros é o cantor e compositor Isac Iolanda Bispo, o JK. “As oportunidades de tocar são imÂportantes não só para o músico, mas também para quem assiste, que pode matar a saudade do Brasil e se divertir”, afirma.
JK tem a composição Um perfume na noite, interpretada pela dupla Zezéti e Ademir, que está nos primeiros lugares da parada nacional da música sertaneja no Brasil. JK já tocou em restaurantes e chegou a se apresentar em 18 churrascos em um mês. “Trabalho na fábrica, mas quero seguir carreira e fazer sucesso também no Brasil”, diz.

O cantor e compositor JK costuma se apresenta em festivais de música: brasileiro busca seu espaço no arquipélago
Profissionais
O caso dos músicos do grupo Brasil Nagô - Binho (teclados), Wellington (bateria) e PauÂlinho (vocal, cavaco, conÂtraÂbaixo e violão) - é diferente. Eles vieram do Brasil para tocar no restaurante Nova Urbana, de Nagoya (Aichi), num esquema de revezamento com outros grupos do Brasil.
“O Brasil Nagô existe há quatro anos e tocamos em restaurantes, bares e fazemos a parte de banda de apoio, isto é, acompanhamento de artistas em shows”, explica Binho.
A presença do grupo todas as noites no Nova Urbana já serviu de incentivo a um brasileiro, também músico. “Um rapaz disse que queria voltar para o Brasil para viver de música. Ele sabia que seria difícil, mas a gente incentivou”, disse PauÂliÂnho, que já foi mecânico monÂtaÂdor antes de se profissionalizar.
Restaurante Nova Urbana sempre teve música ao vivo
“Nesses 11 anos de existência, o Nova Urbana nunca ficou sem ter música ao vivo”, afirma Genival Justino da Silva, o Didi. O Nova Urbana é um restaurante freqüentado por japoneses e funciona como divulgador da cultura musical brasileira em Nagoya (Aichi). E Didi, que trabalha como garçom, também ensina danças nacionais para os japoneses.

Os componentes do Brasil Nagô tocam no Nova Urbana: profissionais incentivam outros talentos a viver de música
Segundo Didi, todos os grupos que tocam na casa são contratados no Brasil. “Isso porque os músicos que vivem no Japão só terão tempo para tocar em finais de semana. Mas aqui é todo dia, num prazo de seis meses. Acho que nem Tokyo tem um lugar assim”, acredita.
O repertório deve mesclar MPB, axé, pagode e forró, sons que são do agrado dos japoneses. “Os clientes gostam tanto que costumam dar uma “caixinha” para os músicos. Alguns dão até dez mil ienes para cada um”, revela Didi.
Antônio Carlos Bordin
Matéira publicada na edição #642 do Jornal Tudo Bem
- Nesta semana
94 mil brasileiros já conseguiram o visto permanente
- Tempo
- Em Gunma (Oogaki)
25°CNublado predominante


