Ensino técnico pode ajudar na busca de trabalho
Com curso técnico no currículo, chance de inserção no mercado de trabalho aumenta. Certificado pode ser conseguido sem curso

Camila Fornazieri de Souza, 17 anos, aluna de automação industrial, quer fazer ITA
Qualificação profissional. A grande maioria dos alunos matriculados em algum curso técnico está em busca disto. Para quem volta do Japão e já tem o ensino médio no currículo, esses cursos podem ser uma opção mais rápida e barata em comparação aos cursos superiores, e o estreito relacionamento que muitas escolas mantêm com empresas e produtores propicia ingressar rapidamente no mercado de trabalho.
“Hoje, as pesquisas mostram que 80% dos alunos com formação técnica têm conseguido boas colocações e melhor reconhecimento nas empresas”, afirma Carlos Augusto de Maio, diretor da Escola Técnica Estadual de São Paulo – ETESP – vinculada ao Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza. “Possuir o certificado de ensino técnico consiste em um diferencial significativo em relação aos alunos que possuem somente o ensino médio (antigo colegial) para inserção no mercado de trabalho”, diz Carlos Maio. Isso porque geralmente não é somente o conteúdo acadêmico que é trabalhado: “o aluno começa a ter uma postura profissional, um comportamento mais interessante para as empresas”.
Almério Melquíades de Araújo, Coordenador do Ensino Técnico do Centro Tecnológico Paula Souza, explica: “As demandas são muito diferentes. O foco do centro Paula Souza é atuar no ensino técnico de nível médio e no ensino tecnológico de nível superior. O público que procura a escola técnica é de dois tipos, basicamente: o jovem que já está cursando o ensino médio e quer simultaneamente fazer o ensino profissional, e o jovem que já concluiu o ensino médio e opta por fazer ou um curso técnico (um ano e meio a dois anos) ou um tecnológico (três a quatro anos).
Existe também o trabalhador adulto, muitas vezes já definido profissionalmente, com bastante bagagem profissional, como o dekassegui, que busca o aprimoramento e diplomação em uma área em que já atuou.
Separação
O ensino prático é o destaque nos cursos da área industrialEm 1998, o ensino técnico foi desvinculado do colegial. Até então, na maioria das escolas técnicas públicas, o candidato que terminava a 8ª série (ensino fundamental) prestava um exame – o vestibulinho – e, se passasse, cursaria o ensino técnico escolhido (eletrônica, edificações, informtática, administração, turismo) junto com o ensino médio. O tempo de permanência dependia da instituição, mas poderia ser de três ou quatro anos. A partir de 1998, quem prestava o vestibulinho entrava ou no ensino médio, ou no técnico. Para o diretor Carlos Maio, a mudança prejudicou os alunos: “Essa separação acabou fazendo com que o aluno que quer cursar concomitantemente o médio e o técnico, como acontecia antes, tenha uma sobrecarga de aulas que muitas vezes o prejudica, e não raro ele acaba desistindo do técnico, visto que o médio é obrigatório”.
A mudança, no entanto, possibilitou que os interessados somente no ensino técnico pudessem cursá-lo em instituições públicas sem ter que fazer o colegial. Para Maio, “as escolas públicas deveriam oferecer as duas modalidades: o ensino integrado e o ensino separado, atendendo, assim, públicos diferentes”. Um dos pré-requisitos é que o aluno ou já tenha concluído o ensino médio ou esteja cursando a partir do 2º colegial.
Existem cursos técnicos nas áreas agrícolas, industrial e de serviços, oferecidos em escolas públicas e particulares regidas pela mesma legislação federal. Nas escolas públicas mais prestigiadas, a concorrência costuma ser alta, e pode chegar a 22 candidatos por vaga nos cursos mais concorridos.
Certificação
Klaus Siegle, aos 40 anos, pretende mudar de área: “Estou fazendo o curso técnico em Informática porque quero mudar minha área de atuação”Pouca gente sabe, mas é possível obter o certificado de ensino profissionalizante mesmo sem freqüentar todas as disciplinas do curso. Almério Melquíades de Araújo, Coordenador do Ensino Técnico do Centro Paula Souza, explica que ainda há certa dificuldade para conseguir a certificação, já que não existem no Brasil centros de avaliação e certificação formalizados. Apesar de ser um processo muitas vezes demorado, vale a pena conseguir o certificado. No entanto, é necessário apresentar a documentação que comprove o domínio do assunto do curso: “o dekassegui de volta ao Brasil pode ir a um centro de avaliação e apresentar comprovantes de que têm conhecimento daquele curso. Um trabalhador que está apto pode se submeter a avaliações e conseguir o certificado de técnico, tendo que cursar somente algumas disciplinas dependendo da sua situação.”
Infelizmente, até agora, o Ministério do Trabalho e o da Educação não conseguiram sistematizar e organizar o chamado Sistema Nacional de Avaliação e Certificação de Competências, o que vem sendo discutido há dez anos e já existe em outros países. “O Brasil tem certificação de serviços e produtos, mas ainda não oferece certificado voltado à qualificação profissional”, esclarece Almério.
Para iniciar e facilitar o processo, é importante apresentar um portfólio organizado, com a descrição de todas as atividades profissionais desenvolvidas, se possível com fotografias. Para fazer as disciplinas que estão no currículo do curso (dsponíveis nos sites das escolas ou do MEC) e das quais o profissional ainda não tem conhecimento, não é necessário passar pelo processo de vestibulinho. Ou seja, se você trabalhou muito tempo com automação, por exemplo, pode conseguir o certificado do curso técnico em alguma escola habilitada no Brasil sem fazer o curso todo. Se necessário, é possível cursar somente as disciplinas que faltam.
Números
O ensino profissionalizante brasileiro apresenta números expressivos, suficientes para ser reconhecidos como uma das pontas fundamentais na educação do País. A rede federal, por exemplo, conta atualmente com 71 Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), 37 escolas agrotécnicas (EAFs), 30 escolas técnicas vinculadas a universidades federais e uma escola técnica federal. Ao todo, atendem cerca de 254 mil alunos no nível técnico e em cursos superiores oferecidos nos Cefets e nas EAFs.
O Centro Paula Souza, por sua vez, uma autarquia de regime especial do Governo do Estado de São Paulo, possui unidades de ensino em mais de 90 municípios paulistas. Dessa maneira, atende em média 130 mil alunos por ano, com uma rede de ensino que abriga 108 Escolas Técnicas Estaduais (ETEs), 18 Faculdades de Tecnologia (Fatecs) e classes descentralizadas em convênio com prefeituras municipais e empresas privadas.

Prédio da sede do Centro Paula Souza, em São Paulo: 90 mil alunos cursando gratuitamente os ensinos Médio e Técnico
Onde estudar de graça
- Cefet - SP
A sede do Cefet de São Paulo fica no Canindé. Há unidades em Sertãozinho, Cubatão e Guarulhos. Os cursos oferecidos são na área de Construção Civil, Indústria, Telecomunicações e Informática. www.cefetsp.br
- ETEs (Escolas Técnicas Estaduais) – Centro Paula Souza
Existem 125 ETEs no Estado de São Paulo. Os interessados devem ficar atentos ao cronograma do vestibulinho, sempre realizado duas vezes ao ano. As inscrições ocorrem nos meses de maio e outubro. Anualmente, são oferecidas cerca de 50 habilitações. www.centropaulasouza.com.br
- Liceu de Artes e Ofícios
A escola localizada no Bairro da Luz, em São Paulo, oferece cursos técnicos de Eletrônica, Telecomunicações, Mecânica e Construção Civil. O vestibulinho acontece somente uma vez por ano. Inscrições a partir de setembro. www.liceuescola.com.br
- Senai
Para ingressar nas escolas, é necessário comprovar a conclusão do ensino médio. O Senai oferece cursos técnicos em 39 habilitações, vinculadas a sete das áreas. Em abril, acontece inscrição para novo processo seletivo. No total serão 2.837 vagas, sendo 1.383 na Capital, 450 na região do ABC e 1.004 no interior. www.sp.senai.br
Edificações no liceu
Renata Nakaharada Mendes de Souza, 26 anosNa verdade, eu queria fazer Eletrônica na Etesp. Como não passei, resolvi fazer Edificações no Liceu – onde eu tinha sido aprovada – porque precisava começar a trabalhar logo, e com o diploma do ensino técnico seria mais fácil encontrar algo mais qualificado. Pensei em me matricular em Edificações no Liceu e mais tarde tentar transferência para Eletrônica. Mas acabei desistindo porque gostei do curso. Logo comecei a estagiar. Muitas pessoas da minha turma desistiram de seguir a área.
O primeiro vestibular que eu prestei foi para Engenharia. Mas vi que gostava mesmo de Arquitetura. Fiz dois anos de cursinho para entrar na faculdade, e depois, no início do curso, percebi que eu tinha mais facilidade do que os outros alunos em algumas disciplinas, principalmente aquelas que envolviam desenho técnico. Continuo na área e fazer Edificações me trouxe muitos benefícios. Gostei muito de fazer o técnico.
Renata Nakaharada Mendes de Souza, 26 anos, fez o curso técnico e continuou os estudos superiores na área
Mecânica na federal
Rogério Fernandes Castelli, 21 anosJá entrei na Federal pensando em fazer curso técnico. Eu já fazia o ensino médio de manhã, gostava da possibilidade de aprendizado que o técnico me ofereceria. Meu objetivo era cursá-lo para facilitar a busca pelo meu primeiro emprego, conseguir juntar dinheiro e posteriormente pagar a faculdade. O ensino técnico abre portas. Eu ainda não sabia qual curso iria prestar na faculdade, e foi no técnico que descobri minha difculdade com as matérias de Exatas e que aquela não era a minha área. Meu pai trabalha com Mecânica Industrial. Na época, eu gostava do assunto. Hoje, estou no 3º ano de História, mas continuo trabalhando com Mecânica para poder me manter financeiramente. Atualmente, recebo quatro vezes mais do que eu ganhava quando comecei a trabalhar na área, há três anos.
Apesar de ter mudado minha preferência de estudos, fazer o curso técnico me preparou para o mercado de trabalho e deu oportunidades que eu não teria somente com o Ensino Médio. Para quem está pensando em fazer o técnico, uma dica: conseguir estágio é muito mais fácil quando você ainda está estudando.
Rogério Fernandes Castelli, 21 anos, cursou Mecânica na Federal, trabalha na área pela boa remuneração, mas mudou a ára de estudos
Turismo na etesp
Gisele Akemi Kohata, 24 anosEu já estava fazendo o primeiro colegial em uma escola perto de casa quando resolvi fazer curso técnico. Alguns amigos me indicavam, e eu me interessava pela área de lazer, por isso resolvi fazer turismo. Apesar de ter que cursar o primeiro colegial novamente, decidi mudar o ensino médio também, porque não ia dar tempo de me deslocar de uma escola para outra.
Fazer o médio e o técnico na mesma escola seria melhor. Além disso, a qualidade de ensino na Etesp é muito bom. Prestei o vestibulinho para o colegial, passei, e um ano depois fiz a prova para o técnico de turismo. Durante o curso, vi que não era bem aquilo que eu queria. Não foi o curso que me decepcionou, mas a minha cabeça que mudou. Nunca trabalhei na área de turismo, mas percebi que se eu fizesse geografia, alcançaria meu objetivo de tentar entender socialmente os lugares. O técnico não foi útil se for ver pelo lado acadêmico ou mercado de trabalho, mas foi ótimo em termos de conhecimento de mundo e de pessoas.
Gisele Akemi Kohata, 24 anos, fez Turismo na Etesp e depois mudou totalmente a área de estudos e de trabalho
Eletrônica no liceu
Daniel Ho, 27 anosSó prestei a prova para entrar no Liceu porque meus amigos da 8ª série iam tentar. Eu não sabia direito o que era curso técnico. Fui no embalo, acabei passando e gostando. Escolhi Eletrônica, achava que era o que mais tinha a ver comigo.
Foi bom ter feito o curso técnico não somente pelo conhecimento acadêmico, mas pela convivência social. O pessoal começa a trabalhar cedo, começa a se virar sozinho antes. Prestei vestibular para Engenharia dois anos seguidos, mas como eu gosto muito de desenhar, resolvi mudar de área. Fiz Desenho Industrial e hoje trabalho em um estúdio de animação 3D para publicidade. Apesar de ser outra área, o técnico me ajudou bastante na parte de desenho técnico e outras matérias de Desenho Industrial. Foi a melhor coisa que eu fiz. No mínimo para eu saber que não queria fazer faculdade de Engenharia.
Daniel Ho, 27 anos, fez mecânica no Liceu e mudou de área
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