Capote estréia neste sábado e traz ator premiado com Oscar
Phillip Seymour Hoffman está perfeito no papel do conturbado escritor
Já muito se falou a respeito da interpretação de Philip Seymour Hoffman para caracterizar o escritor Truman Capote. Já se falou, e talvez ainda se tenha falado pouco, porque de fato é digna de nota. Um grandalhão como Hoffman viver um baixinho como Capote, e mais ainda com aquela voz – e tudo isso soar convincente – é realmente muito difícil. Mas é claro que o filme não se limita a Hoffman e suas proezas. Vai além. Confira o resultado nos cinemas sábado 30. E isso tudo tem a ver com a direção firme de Bennett Miller, em sua primeira obra “de ficção”. As aspas aqui querem dizer que Capote, o filme, é tão “de ficção” quanto o livro de Truman Capote, À Sangue Frio. São ficções baseadas em fatos reais, tanto o filme como o livro.
Em algum momento, Capote diz, a propósito do seu livro, que ele vai tentar descrever um estranho e fatídico encontro. Diz que existem duas Américas, uma que respira segurança e decência, e outra, a do subterrâneo, onde é tudo miséria e violência. Naquele dia, quando aconteceram os crimes que liquidaram a família Clutter, essas duas Américas confluíram, no mesmo tempo e espaço. No filme, esse encontro é simbolizado pelas conversas entre o personagem de Capote (Hoffman) e um dos criminosos, Perry (Clifton Collins Jr.). O bruto e o dândi. Uma dualidade simplificadora, porque, como de hábito, as coisas são mais complicadas. O bruto pode ser frágil e confuso. E o dândi, implacável e calculista na ânsia de obter material para o livro que fará dele uma celebridade. Sim, porque Capote não pretende descrever uma carreira ou questionar uma vocação de escritor. Ele se circunscreve àqueles anos decisivos em que o então correspondente da revista New Yorker tenta escrever sua obra-prima, a partir dos assassinatos de um casal e dois dos seus filhos em uma pequena cidade do Kansas. A história é bem conhecida. Capote leu a notícia no New York Times e pressentiu que ali havia bom tema de reportagem. Foi ao local, quando os criminosos ainda não haviam sido presos. Logo depois da captura, entrou em contato com eles, com um deles em especial, Perry. Acompanhou-os no julgamento, e os entrevistou nos anos que se seguiram até a execução da sentença.
Para colocar no papel o que viu, ouviu e imaginou, Capote aprofundou uma técnica, a da reportagem que usa recursos da ficção. Como resultado, Capote escreveu um dos livros mais influentes dos anos 60 nos Estados Unidos.
Mas, aqui, é do filme que se trata. E este é quase perfeito na maneira como põe em contato essas duas Américas, muito bem percebidas por Truman Capote. Sem que em momento algum se fale em classes sociais ou qualquer coisa desse tipo, o que se vê na tela é aquele mal-estar difuso de uma existência social serena que, de repente, sem aviso, pode se transformar em pesadelo. Em Holcomb, no Kansas, não havia motivos para trancar portas e janelas à noite. Essa tranqüilidade foi enterrada junto com os Clutters. A paz social é uma casquinha de ovo, eis aí o que diz essa experiência terrível. Capote é também uma reflexão sobre a arte e seu preço. Muitas vezes os grandes são movidos por motivos egoísticos e tomam decisões de ética duvidosa. Truman Capote é um maravilhoso exemplo disso. Depois, tudo passa; os protagonistas se vão e fica a obra. Quando fica.
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