Casamento internacional
Três brasileiros mostram que é possível sim ser feliz ao lado de pessoas com culturas e idiomas completamente diferentes
Não é novidade ouvir que o Japão é um país propício para os brasileiros encontrarem a sua alma gêmea ou cara-metade: o difícil é ficar sozinho em um lugar em que a solidão parece bater mais forte. No arquipélago, a comunidade verde-amarela não só namora muito, como também se casa bastante. E quando o assunto é relacionamento, a diferença de nacionalidade deixou de ser um obstáculo.
Há alguns anos, era raro um brasileiro se casar com uma pessoa de outra nacionalidade. Hoje, apesar da diferença cultural, já é muito comum ver nikkeis casados com japoneses, peruanos, iranianos etc.
Nessa reportagem, três pessoas da comunidade verde-amarela ultrapassaram as dificuldades das diferenças culturais para viverem uma grande história de amor.
O curioso é que mesmo literalmente não falarem a mesma língua, essas pessoas conseguiram conhecer e conquistar seus parceiros.
A brasileira Maristela Chinen, 28 anos, por exemplo, se casou com um nepalês que fala o idioma japonês e conta que a comunicação era bem complicada. “Eu não sabia falar nihongo na época. Era difícil me explicar e ele ria de mim”, conta.
Lumiko Slocum, 41 anos, casada com um americano, ainda passa por uma situação parecida. “Meu marido só fala inglês e, às vezes, tenho problemas em expressar pequenos coisas ou sentimentos.”
Já o brasileiro Maurício Amano, 33 anos, confessa que não teve problemas culturais com sua esposa japonesa Rieko. “Cada um de nós teve que ceder um pouco para amenizar as diferenças culturais. Eu me adaptei a ela e ela se adaptou a mim. Ninguém precisou fazer nenhuma mudança radical.”
Isso só prova que, quando se trata de assuntos do coração, não há fronteiras.

Ajuda nipônica
Estou desde 1995 no Japão. Eu tinha o costume de freqüentar uma loja de roupas em Nagoya (Aichi), onde a Rieko trabalhava. Ela é quem me atendia na maioria das vezes e, mesmo sem eu saber falar japonês muito bem naquela época, acabamos fazendo amizade. Um dia, em 1998, eu tomei a iniciativa de convidá-la para jantar e ela aceitou. Depois desse dia, não demorou para começarmos a namorar. A família dela não se opôs e, dois anos depois, decidimos nos casar. Nunca tivemos grandes problemas de relacionamento e nem de diferença de culturas
Época de paz: “Por incrível que pareça, sempre nos relacionamos muito bem. Acho que as maiores bênçãos dessa união são as nossas duas filhas, uma de 2 anos e outra de 4. Além disso, minha esposa me ajuda muito no trabalho e, em pouco mais de cinco anos de casados, já conseguimos atingir alguns objetivos. O principal deles foi a compra de uma casa própria.”
Época de guerra: “Nunca tivemos grandes desentendimentos. Houve um único inconveniente, no início de nosso namoro: eu não aprovei o costume japonês de sair para beber após o trabalho, porque as pessoas não costumam levar companhia nesses encontros. Tive que cortar isso, mas minha esposa entendeu muito bem.”
Maurício Amano, 33 anos, com a esposa japonesa Rieko, 32 anos, de Nagoya (Aichi)
Comida nepalesa
Eu o conheci através de uma amiga brasileira. Era uma época em que eu não estava mais andando com brasileiros. Estava na casa dessa amiga e ele apareceu, a partir daí, ele começou a me paquerar. Namoramos durante 1 ano e hoje faz 4 anos que estamos casados. O nepalês é bem parecido com o brasileiro: é comunicativo, extrovertido e adora uma festa. Casei de vestido vermelho, pois é a cor que as noivas do Nepal vestem no dia do seu casamento. No começo a comunicação entre nós era bem difícil. Eu não conseguia falar, me explicar e ele ficava rindo. Eu acabava ficando nervosa e então o bicho começava a pegar. Mas agora conversamos em nihongo, em português, um pouco de tudo. Acabei aprendendo bastante a língua japonesa com ele, e até hoje ele me ensina
Época de paz: “A nepalesa não trabalha. Ela fica em casa cuidando dos afazeres domésticos. Já a brasileira trabalha e ainda cuida do lar”, conta Maharjan. “Em casa só faço comida típica do Nepal. Não comemos pratos brasileiros nem japoneses. Aprendi a cozinhar esses pratos, apesar de não muito bem… Hoje eu sinto mais a falta da comida nepalesa do
que brasileira”, confessa ela.
Época de guerra: “Nunca consigo sair com meu marido sozinha. Ele sempre leva junto um amigo. Às vezes saímos com um monte de homem e só eu de mulher. É que o homem nepalês tem o costume de sair apenas com os amigos homens. Eles nunca levam suas esposas. A mulher tem que ficar em casa, mas ele sempre me leva quando sai. Apesar disso, acho ruim quando quero sair sozinha com ele.”
Maristela Chinen, 28 anos, com o marido nepalês Maharjan Rupendra, 32 anos, de Oizumi (Gunma)

Marido norte-americano
Estamos casados há 10 anos e moramos no Japão há sete, mais precisamente em Hamamatsu (Shizuoka). Fui para os Estados Unidos estudar em uma faculdade e o Greg também freqüentava o mesmo local, perto de Los Angeles. Fiquei três anos estudando e decidi vir ao Japão com o meu marido americano. Ele gosta daqui e quer aprender o idioma japonês
Época de paz: “Ele é imprevisível e não é muito de se prender a regras. Já eu sou o contrário e por isso acho que demos certo. Nos afazeres domésticos, os americanos ajudam um pouco.”
Época de guerra: “O idioma é um fator de desentendimentos. Meu marido só fala inglês e às vezes tenho problemas em expressar pequenos detalhes ou sentimentos. Por causa de algumas diferenças culturais, o que ele fala pode me ofender um pouco e vice-versa.”
Lumiko Slocum, 41 anos, com o marido americano Greg, 46 anos, de Hamamatsu (Shizuoka)
Reprotagem: Karina Morizono
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