Comunidade

Escritor luta contra preconceito no Japão

David Aldwinckle, norte-americano naturalizado japonês, relata a experiência de ser estrangeiro e viver em um país tão homogêneo


David criou site para ajudar estrangeiros que vivem no Japão a lidar com vários tipos de situações e preconceito

Há 20 anos no Japão, o norte-americano David Aldwinckle – que é casado com uma japonesa e é fluente em japonês – criou o site www.debito.org que conta sobre “a vida no Japão do ponto de vista de um escritor norte-americano”, e a experiência de viver em um país sem ter nenhum traço oriental, e sem a condição de ser um cidadão japonês.

Em entrevista ao jornal Tudo Bem, David, ou Arudou Debito, nome que adotou após naturalizar-se japonês, comentou sobre a importância de aprender o idioma. “A partir do momento em que você aprende a ler, escrever e falar, sua vida se transforma para melhor. O retorno será compensador”, aconselha.

“No caso dos brasileiros no Japão, onde muitos são nikkeis, imagino que por mínimo que seja, possuem alguma familiaridade com a língua. Ao mesmo tempo, a pressão é maior para que falem bem o idioma, o que não acontece com um não descendente”, argumenta.

‘Aprenda japonês. o retorno será recompensador’

Jornal Tudo Bem Por que abordar o preconceito de japoneses contra estrangeiros?
David Aldwinckle A principal motivação surgiu durante o período em que trabalhei em uma empresa de importação em Sapporo. Sofri uma série de abusos, desde coisas cotidianas como não poder ir ao banheiro mais de duas vezes ao dia e represálias pesadas por erros simples de japonês. Comentei sobre estes abusos com advogados, e eles recomendaram que eu buscasse ajuda no sindicato dos trabalhadores, e foi o que fiz. Quando citei o nome do sindicato em meu trabalho, meus superiores recuaram e consegui com que parassem com os abusos. Meu trabalho pelos direitos dos estrangeiros começou desta forma, quando descobri que com a devida pesquisa e argumentação, todos podem evitar os abusos e desfalques de seus direitos.

JTB Com tantos anos no Japão, família e filhos japoneses, ainda sente preconceito?
Aldwinckle Hoje, após 20 anos no país e com fluência da língua japonesa, consigo evitar muitas inconveniências, que ao mesmo tempo, me mostram que nem tudo que acontece de errado é por uma questão de discriminação ou racismo por parte dos japoneses. O que incomoda é quando ouço declarações de que eu não posso fazer parte de algo simplesmente pelo fato de não ter nascido japonês. Nestes casos faço sempre questão de perguntar “por que?”, daí tiro a conclusão se é um caso de discriminação ou simplesmente uma regra que eu ainda não conhecia. Se for o segundo caso, cabe a mim saber respeitar.

JTB É possível medir o preconceito do japonês contra um estrangeiro que domina e outro que não domina o idioma?
Aldwinckle Sim é possível, e posso dizer por mim que a diferença é tão evidente quanto a distinção entre o dia e a noite. Se posso dizer algo para quem lê esta entrevista é: aprenda japonês. Sei que toma muito tempo e esforço, mas a partir do momento em que você aprende a ler, escrever e falar a língua, sua vida nesta sociedade se transforma para melhor. O retorno será recompensador. No caso dos brasileiros, onde muitos são nikkeis, imagino que, por mínimo que seja, já possuem alguma familiaridade com a língua, mesmo que sejam poucas palavras informais, mas já é algo. Essa é uma vantagem em relação a estrangeiros de outros países que começam da estaca zero. Ao mesmo tempo, os nikkeis sofrem uma pressão maior para que falem bem o japonês, o que não acontece com pessoas que não tem ascendência japonesa, como eu. Portanto, para ambos os casos, a saída é estudar.

JTB O que acha da medida em estudo, de atrelar a emissão do visto ao conhecimento do idioma?
Aldwinckle Concordo que aprender a língua deve ser considerado um requisito básico para viver no Japão, mas discordo quanto à aplicação de um teste para determinar a entrada ou permanência no país. O programa, até onde foi anunciado, está muito vago, sem clareza a respeito do direcionamento que será tomado. Neste momento, posso dizer que não sou entusiasta deste projeto. Penso no caso de uma família, quando parte for aprovada e outra parte reprovada, eles terão que se separar? E se os testes forem aplicados pelos empregadores, e eles usarem isto como ferramenta para fazer retaliações e prejudicar os direitos dos estrangeiros? Se não for muito bem estudado, pode se tornar uma nova maneira de cometer abusos.

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